Um vinho com Veríssimo (Salustiano)
UM VINHO COM VERÍSSIMO
O mar daquela tarde na Enseada aparentava embriagado, em passos trôpegos tentava escalar as ondas que quebravam na cadência das milenares ordens, ou desordens, que o universo tão bem ditava. Acordara com sol batendo forte e gosto de cabo de guarda-chuva após as vodcas da noitada.
Quando olhei, estava ele ali, prancha largada, cabelos queimados no sol do sorriso distraído e silêncio confortável de velhos amigos, como se de outro mundo fosse. Sem pedir licença inquiriu Casemiro de Abreu:
— Após a linha do horizonte, que tudo delineia, existe algo maior?
Bom início de conversa no espaço-tempo não mensurado pelos relógios derretidos de Salvador Dali, tempestades e amores espocaram vívidos, livros e noites insones relembrados. E a eterna dúvida sempre presente: De onde viemos, para onde vamos. Entre baseados e muita vodca navegamos sete mares.
— Eu frequento sessão espírita. Vamos?
Pergunta que teve imediata resposta corajosa fincada na curiosidade dos que ousam perquirir. Seguimos. A realidade se dissolvia pelos caminhos trilhados enquanto as luzes se acendiam esparramando a líquida claridade na noite que se avizinhava. Na casa escondida sob amendoeiras o perfume dos jasmins se imiscuía na luz leitosa que jorrava das janelas mal fechadas, Irmã Tereza, com voz monástica, nos perguntou a que vínhamos, Irmã Clara nos pediu espera e, após darmos um tapa em novo baseado, irmã Lúcia nos fez adentrar.
—Família grande, pensei mirando o alvo de suas vestes. Dentro, na mesa grande, imperava o branco fatigado pelo tempo, nas cores misturadas com outros irmãos circunspectos, em círculo. Meu amigo queria encontrar Jimi Hendrix.
Não sei por que, naquele instante lembrei de Luiz Fernando Veríssimo. Morrera naquela semana e eu achava absurdo a vida ceifar vozes que jamais deveriam cessar.
Na vibração das cantilenas as luzes diluíram-se na bruma que veio primeiro. Névoa densa infiltrada em lento adensar, com um agonizante ocupar espaço que não mais permitia rostos, apenas disformes vultos. Avistei o portal. Era colossal em ondulante superfície, pedra líquida de difícil descrever, entremeados aramados vivos que conduziam à frente, em arquitetura atemporal. Na neblina envolvente arquétipos de seres brancos ondulantes pairavam sobre a face das águas.
Então surgiu Veríssimo. Bonachão, caminhando na altivez de sua naturalidade, uma taça de vinho e sorriso debochado:
— Demorou, vivente!
A nos conduzir, branco e silencioso carro deslizante, parecendo elétrico chinês. Outra taça surgiu, aqui bastava apenas desejar o desejo logo atendido. Brindamos. Na penumbra das brumas partimos.
— O Machado continua rabugento — confidenciou, servindo mais vinho. — Parece Don Casmurro. Mas ri escondido das minhas piadas.
Viviam qual comunidade de imigrantes, por origem e afinidades. Manoel Bandeira observando nebulosas, anotando ditado das estrelas. João Guimarães Rosa? Está no descampado dos grandes sertões… Veríssimo Mostrou mais à frente os franceses, eram metidos. Dumas bebericando um chablis com Victor Hugo, enquanto Albert Camus e Jean-Paul Sartre discordavam sobre o sentido da existência. Lembrei-me de Soljenítsin.
— E os russos?
— Estão ali naquela quadra, respondeu Veríssimo — Aqui é assim, você pensa e aparece na sua frente, nada é fixo, as coisas estão onde você quer que estejam.
Realmente na outra quadra estavam os russos. Tolstói gesticulava para Dostoiévski que o encarava com olhos febris, parecendo discutir Deus há séculos. Tchekhov apenas assistia taciturno. Achei interessante que eles pareciam exatamente como eram nas gravuras.
— É assim mesmo, todos aparecem do jeito que você os construiu.
Sentamo-nos, vinhos servidos, brindei à vida enquanto Veríssimo brindou ao além. Vultos bancos interagindo discretos, ótimos serviçais. Anjos ou algoritmos?
— Deus tem investido muito em inteligência artificial, falou ele, percebendo o interesse. A adega era grande, o vinho extraordinário. Denso, mineral, quase luminoso. Um bouquet complexo e maravilhoso.
— Reserva especial — explicou, erguendo a taça. — Vinho dos deuses, falou em tom de galhofa.
Em lugar onde tempo inexiste conversamos bom tempo. Ele queria saber de Bagé, do Analista, se ainda consultava na base do joelhaço. Queria saber das crônicas antigas. Estava orgulhoso da televisão ter exibido “As mentiras que os homens contam”. Falava sem parar, sempre divertido, por vezes nostálgico e, enorme contradição, humano. O tempo parecia não passar. E realmente não passava.
A densa neblina pareceu adensar mais, predizendo impossível anoitecer. Uma súbita dor no peito e repentina vontade de regressar, sem saber para onde. Para o corpo? Para o convívio dos vivos? Para a dor?
Parece terem pressentido minha intenção. Rápidos vultos brancos me rodearam, com mãos de asfixia de quem não possuía mãos. A névoa girava violentamente enquanto luzes faiscavam sobre mim. Abri os olhos ao ouvir vozes metálicas e um monitor de bips frenéticos. Eletrodos pesavam contra meu peito.
— Carrega!
O choque adentrou meu corpo rasgando cada recôndito em dor lancinante, num espasmo de brutal contorção. No tempo pausado pela dor senti a calmaria do alívio, como a massagear o dolorido do inusitado.
Reabri os olhos, agora pesados. Bem acima dos jalecos brancos debruçados sobre mim vi meu amigo de sorriso distraído acenando, vestindo a camiseta do Jimi Hendrix.
Verissimo pairava logo acima dele, com seu sorriso debochado e a taça de vinho na mão. Ergueu-a lentamente e me encarou bonachão:
— Saúde!
Salustiano Souza
Maio/2026
