Texto-presente – Maria Antonieta Cunha (Marinaldo Silva)
Texto-presente – Maria Antonieta Cunha
Marinaldo de Silva e Silva
Pequena, por volta de 1942, a menina Maria se encantava com o barulho do trem, som que musicava a história de sua Ribeirão Vermelho, com sua rotunda ferroviária que parecia um castelo, emoldurando, sem saber, o transporte entre a menininha e todo o futuro que viria pela frente. Ela tinha só 3 aninhos de idade, e sua mãe a embalava – fumaça do café em contraste com a janela e a paisagem de fora – enquanto o apito do trem apontava o caminho que o pai já indicava: primeiro Ibiá, depois Cruzeiro, até se estabelecerem em Belo Horizonte.
Maria Antonieta foi adentrando no universo encantado na palavra, ali, na cidade grande. Foi aprendendo a traduzir o mundo, esse grande texto que ela aprendeu a ler, que descobriu que poderia ser o que a vida lhe entregava: pianista, apaixonada pela arquitetura da palavra, e inclusive, cantora quando na Rádio Guarani apresentava composições do folclore brasileiro! A arte lhe mostrava uma potência divina, e Maria, sempre cheia de graça, apreciava a vida e sua casa, lugar onde habitavam livros e palavras mágicas que virariam bilhetes premiados, em primeira classe, para um futuro cheio de conquistas!
Professora, selecionadora de cadernos didáticos, formadora de tanta gente que ensinou o outro a traduzir a imagem de uma letra em coisa com sentido, Maria foi se conduzindo pela paixão, entendeu que a vida reserva surpresas, e foi agarrando cada oportunidade, meio Dulcineia de Toboso de si mesma, trazendo para o mundo material toda a singularidade delicada de seu império de imaginações tão cheias de lira…
… Pela delicadeza com que essa mulher tão potente, dona de tantos títulos, já citada nos mais diversos artigos, livros e programas, detentora de diplomas, honrarias, tradutora de palavras e de gentes, tradutora de poetas longos e pequenos, tradutora de sons e de acalantos, de ilíadas apaixonadas e cartas de alunos sem o mesmo significado, mas com a mesma potência, presente na voz de sua amiga de classe, Sueli Brandão, que trouxe sua emoção com tanto carinho, e numa infinidade de outras vozes que seria impossível citar, eu escrevo esse texto presente. É um tempo de amor que se planta quando se imagina alguém, como imagino Antonieta em seus 87 anos, desfiando mais um livro como se fosse o primeiro, ouvindo os textos de seu filho como a glória de quem viu nascer uma divindade tão sua. Li recorte de sua biografia, percebo como ela é vasta, entendo como ela se espalha e o quanto ela espelha todo o valor que tem o amor pela educação e pela literatura. Esse texto-presente vem falar sobre isso, sobre o dar-se, sobre o SER-SE, se poderíamos compor essa auto percepção. Esse texto-presente vem buscar agradecer, em nome de toda a Academia desta cidade, a honraria de sermos irmanados pela DeusaPalavra. Enquanto escrevo, querendo fugir da vaidade em corrigir uma palavra errada, ou buscar alguma inteligência que, artificialmente jamais vai substituir essa vontade de acertar na letra, me atento às informações que tenho, e ao chamado que senti, há alguns meses, que eu precisava ofertar esses tantos caracteres que falam um pouco do nosso caráter, de escritores que somos, em fazer que o L seja a foice, o T o fuzil, o U o anzol, o A a atmosfera, o P o ponto de observação, as letras todas unidas uma legião contra a guerra insana que homens travam há milênios, quando, seria tão fácil, fazer como Antonieta, como todos nós que amamos o papel, esse fundo branco onde nos atrevemos a nos mostrar. Querida Antonieta, esse texto-presente é para a senhora que tanto sabe traduzir a rima entre delicadeza e força.

